Tribunal de Confissões

Confissões de uma acusada.

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Sexta-feira, Junho 19, 2009


Dentro de mim uma histérica grita: foda-se a moral!

Desconfio que haja em mim uma vadia sem princípios que alimenta o ego inconscientemente quebrando os limites do bom-senso e mordendo sempre o fruto mais proibido. Só porque é proibido. Porque o cheiro e a cor da fruta nem eram tanto do seu gosto assim.


Domingo, Janeiro 04, 2009


Preciso do anonimato porque o que eu trago dentro de mim é pesado demais pra suportar um nome. Aqui estou.
Há um alerta em mim a doer que permanece indigente. Não lhe sei a causa. Mas dói. Deve querer alertar para alguma mudança que deve ser feita logo. Mas eu não consigo ver. Não consigo perceber o que é.
Ah e essa dor que me enfraquece mais o respirar... qualquer suspiro vira choro a ser contido. Se me aparecesse alguém com um abraço mudo eu desabaria em lágrimas e isso seria patético e ridículo. Soluçar e querer parecer forte não são duas coisas que combinam.
Está tudo tão sem rumo, está tudo tão bagunçado que eu não sei por onde começar a arrumar. Perdi o caminho, o destino, o objetivo. Perdi o norte.

Eu queria alguém a me contar histórias de dormir.


Sexta-feira, Outubro 24, 2008


O que me deixa louca não é mais a questão moral. É, eu perdi um pouco da dor de infringir o moralmente correto. Já que aqui é um Tribunal de Confissões, que me acusem, porém não podem na acusação, apontar a falta de verdade com que digo tudo isso de cara deslavada.
Não... não é cara deslavada. Só uma vontade bem grande de ser feliz a todo custo.
Se a vida fosse justa, seria menos complexa.
Haveria o certo e o errado. Puros. Seria fácil decidir. Pelo erro e pelo acerto, mesmo que optando pelo primeiro, a certeza da escolha feita.
Tenho a segurança e a comodidade, quentinhas e confortáveis como o ar familiar com que nos faz respirar bem leve. Quase um não-respiro. Do outro lado, a insanidade, inconsequência e a incerteza, tão rebeldemente atrativas quanto qualquer transgressão que vocês possam lembrar. Acelera o respirar. Quase um sufoco.

No bem da verdade, não há escolha a ser feita.
Às vezes eu me coloco em posição de controladora sendo que sou apenas ré. Esperando pelo resultado do julgamento, ansiosa para saber o desfecho:
a sentença da condenação, ou a liberdade da absolvição.

Mas liberdade ainda é muito pouco para o que eu quero.



E eu não tenho mais princípios.


Quarta-feira, Outubro 22, 2008


Toda escolha leva em si uma renúncia.


A questão é saber o que quero renunciar e em prol de qual destino estarei apostando.



Difícil...


Sábado, Abril 07, 2007


Eu não me lembro mais como é estar apaixonada. Não lembro e nem sinto vontade de recordar.





Trauma.

Pode diagnosticar alguém com ar de sabido e mania de pseudo-terapeuta. Mas eu vou teimar em ser um caso sui generis. Defendo que dissequei o amor morto, abri suas entranhas podres e examinei cada detalhe a sangue-frio. Assim, como um analista a descobrir a causa do óbito e soltar o diagnóstico: não era amor.
O amor não existe!

...
Mas eu ainda espero que apareça alguém para me provar de uma vez por todas que estou errada. Espero que apareça o cara que vai olhar pra mim e fazer o mundo parar e rodar infinitamente mais devagar. O cara que vai trazer em sua íris o reflexo da minha alma, vai pôr em cheque os meus medos, me encostar na parede e apontar o dedo dizendo: você é uma covarde! O cara que vai me fazer certificar que todas as baboseiras que falam sobre o amor são realmente verdadeiras. O cara que vai ter todos os defeitos que mais abomino e mesmo assim, fazer com que eu não consiga parar de pensar nele. O cara que vai me fazer perceber em alguns momentos que o meu maior ódio se confunde com o amor maior que eu poderei sentir.

Ele vai ser mau-humorado ao acordar. Vai ser irritante. Vai me perturbar quando eu estiver de tpm e ainda vai ficar fazendo piadinhas sem-graça quando eu declarar minha dieta de segunda-feira pela quarta vez no mês.
Ele vai esquecer que combinou o jantar comigo na comemoração do nosso primeiro mês de namoro. Vai esquecer de puxar a cadeira no restaurante, e não vai notar que eu repiquei as pontas do meu cabelo.

Vai brigar comigo. Dizer que não me agüenta mais. Que odeia minha mania de ser aparentemente tolerante, mas infinitamente rancorosa. E vai me fazer gritar e brigar de verdade pela primeira vez na minha vida. Vai conseguir me tirar do eixo, perder meu controle e mandar ele se foder. Aí ele vai rir da minha cara. Eu vou embora aos nervos jurando que nunca mais o verei em sã consciência. E cumprirei minha promessa, porque não há consciência sã em casos de amor.

E ele não vai ligar no dia seguinte, embora eu fique em casa atenta ao menor sinal do telefone. Mas depois ele vai ligar com uma desculpa qualquer de que esqueceu a carteira na estante da sala e precisa passar em casa pra buscar. A gente vai se reconciliar assistindo Shrek na Sessão da Tarde e depois vamos rir e nos sentir as pessoas mais felizes e bizarras do universo brincando de luta no tapete da sala, depois de uma competição de quem cuspia a mais longa distância.
...
Mas eu não acredito no amor, e nem quero estar apaixonada outra vez.

Assim, espero na cela da minha prisão racional, não por um príncipe de cavalo branco, mas por alguma sentença de guilhotina com um carrasco que me faça perder a cabeça.
Literalmente.


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